Era uma tardezinha típica de sextas, bem tranquila, com cheiros indescritíveis e deliciosos de sentir entrando pelo nariz e tomando seu corpo inteiro, com jovens formando uma rodinha no meio da praça cantando e tocando os Beatles e Bob Dylan, na maior paz! Foi assim, exatamente assim que os vi pela primeira vez, acredito que foi a última também, pelo menos enquanto juntos.
Ela estava com a feição preocupada, como quem quer desabafar algo da tão profunda alma e ele, bem, se o pudesse descrever de alguma forma usaria a palavra necessitado, ou faminto - e não digo quanto a alimentos do físico não, falo da essência. Se sentaram numa mesinha do café da praça, fui perguntar se algo desejavam, ela respondeu que nada queria, já ele quis um café e "... com bastante açúcar, por favor" - me lembro bem de exaltar a voz quando fez o pedido encarecido, vai ver que queria adocicar mais aquele momento tão confuso.
- Não dá mais, eu cansei. Passei a odiar essa tua procura contínua pelo desconhecido, por algo além disto aqui.
- Sinto muito!
- Tá vendo? Você e essa sua mania irritante de sempre se desculpar, de tentar me fazer voltar atrás.
(E eu me perguntava, o quê diabos então ela queria ele fizesse?)
- Então me calo, fale o que tiver pra falar. Se houver necessidade de algo, por mim, ser dito, você vai saber calar. (...)
A partir daí não escutei mais nada, ou não lembro do que foi discutido. Só sei que quando servi a ele o café, o tomou rapidamente, como alguém que precisa muito não escutar tudo aquilo, como quem queria mesmo deixar aquele momento tão atordoante, doce.
Ela saiu, no começo com passos tranquilos, depois começou a correr e, pelo menos enquanto a enxerguei, ainda corria, como quem vai acabar caindo em um buraco, desmaiar e ao acordar se encontrar no País das Maravilhas.
Ele levantou-se, colocou sobre a mesa que ocupavam uma caixinha e saiu andando vagamente, sozinho mesmo, por dentro e por fora.
Me apressei um pouco, cheguei até a derramar um pouco do suco de laranja pedido por outro cliente, peguei a caixinha para devolver ao rapaz, quando me virei não o enxerguei mais. Mais tarde, ao chegar em casa - cansada, diga-se de passagem - a abri, ela mesma, aquela caixa pequena que me dava tanta nostalgia, e lá havia - diferente do que muitos podem estar imaginando - uma pulseirinha, com pingentes simpleszinhos: um trem, uma estrela, um pássaro, um violino e um coração... é, isto mesmo, um lindo coraçãozinho. Devia representar o sentimento reprimido dentro dele, então descobri qual a fome que consumia aquele rapaz, era o Amor. E hoje sinto muito por ele não ter tido a chance de demonstrar tanto sentimento, e por ela também, pela falta de paciência, ou pela paciência além da conta.
E, ao transcrever tais acontecimentos acabo de me dar conta que preciso, necessito falar sobre o grande amor que sinto, então deixo aqui o inacabado texto sobre a precisão, o perdão, a paciência e também sobre últimas chances...
F.
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